O mundo evangélico brasileiro está como um reino dividido, com seus diferentes segmentos disputando entre si. O mais recente episódio se deu a partir de uma ousada iniciativa de uma emissora de TV de levar ao ar uma dura crítica à prática do "cair no Espírito". Numa reportagem de 40 minutos em sua revista eletrônica dominical, a rede de TV, pertencente a uma igreja protestante, comparou a manifestação a rituais espíritas. Uma famosa cantora e seu ministério foram os principais nomes atacados na matéria.
Por sua vez, pastores famosos da linha chamada pentecostal vieram a público se mostrar indignados com o conteúdo jornalístico veiculado. Para eles, a emissora, que deveria disseminar os princípios cristãos, agora atira contra gente amiga, tudo por causa da guerra de audiência e da disputa por membros.
É duro dizer, mas, no final das contas, tais pastores e seus rebanhos, independentemente da linha a que seguem, podem ser enquadrados no mesmo saco de farinha. Se um deles critica o "cair no Espírito" é porque a busca pela verdadeira unção está tão banalizada que já é motivo de chacota. O começo de todo o processo, aliás, já é equivocado quando os pentecostais pensam que estão recebendo a terceira pessoa da suposta Santíssima Trindade. Ora, Deus não habita em quem sequer sabe quem Ele é. Ademais, que Espírito é esse que leva os tais crentes a rejeitarem o nome do próprio Deus em seu batismo? Esses podem receber tudo, menos o Espírito Santo. Adquirem apenas Seus dons, que são dados até a rebeldes (Salmo 68:18), sem arrependimento. Ganham a dádiva do cantar, do pregar, do profetizar e adquirem outros prêmios que o Diabo lhes concede como vaidade, o que os torna aptos a transformar seus talentos em carreira e dinheiro. Porém, o Espírito só recebe quem segue a Palavra como Ela é.
Uma prova cabal do que falo, leitor: os apóstolos Pedro, João e Tiago, ao ver Jesus Cristo transfigurado diante deles, "caíram com a face por terra e tiveram medo" (S. Mateus 17:1-8). Mas receberam o Espírito Santo naquela ocasião? Não, visto que Pedro chegou até a negar a Cristo após aquele episódio, tendo recebido o Consolador apenas em Atos 2 (Pentecostes). No entanto, para os crentes de hoje, cair com o semblante no chão em pleno Monte da Transfiguração seria prova suficiente do recebimento do Espírito, já que valorizam o rodopiar, gostam de subir morros e se conformam com qualquer enrolar de língua. Práticas, no mínimo, estranhas, visto que o "dê Glórias até que sua língua enrole" nunca apareceu na Bíblia como caminho até o Espírito Santo.
Por outro lado, o pastor que ousou condenar as práticas pentecostais não escapa ileso. Arriscaria dizer que se encontra em situação muito pior, a ponto de defender o aborto, confessar que bebe socialmente e utilizar seu veículo de comunicação para pôr no ar novelas pervertidas e programas de humor tolo e contraproducente. Isso sem falar na moeda de troca oferecida em suas igrejas: a prosperidade puramente material. Condição lastimável, pior que a Igreja Romana, que ainda tenta segurar as rédias da liberação às práticas libidinosas.
Enfim, leitor, para onde recorrer? Decisão difícil para quem não conhece a Deus. Para os que sabem que a Palavra de Jesus é a Verdade, resta seguir ao Senhor como dizem as Escrituras, fugindo da busca por bens materiais e por sensações passageiras. A saída é focar no verdadeiro e real "cair no Espírito", que existe e é comprovado, acima de tudo, com vida e conduta interligadas com a mente de Cristo, agindo como Deus agiria, pensando como o Senhor pensaria. Fora disso é conversa mole, advinda de um comportamento de quem é meramente um membro de igreja.